Islanna lança projeto Vozes Negras

Neo marca brasileira de moda lança movimento que dá voz à potências femininas e negras na sociedade

A Islanna, marca criada em Londres pela brasileira Islana Rosa, já é conhecida no exterior por apresentar uma moda contemporânea e com apelo sustentável. A fundadora e CEO desenhou um plano de negócios que pudesse traduzir sua visão para uma nova marca de roupas, com menos impacto ambiental e muita informação de moda. A força da mulher independente e autoconfiante também está representada no conceito, que propõe empoderamento e atitude através do styling. Agora, a marca se volta para o mercado brasileiro e lança o projeto Vozes Negras.

Após a escalada do movimento Black Lives Matter, que tomou conta do Brasil e do mundo em junho de 2020, Islana decide focar seus esforços nas comunidades negras – promovendo artistas mulheres através da moda e apoiando organizações não governamentais, ligadas à promoção da educação e empoderamento feminino.

O projeto Vozes Negras manifesta o desejo de Islana com a sua marca em direção a uma moda antirracista, com base em três pilares: a visibilidade para vozes femininas negras; a criação de conexões entre mulheres negras e a sociedade; e a remuneração justa e o empoderamento feminino negro.

“A idea de criar o movimento Vozes Negras surgiu de um desejo antigo de potencializar o poder da comunidade artística negra no Brasil e trabalhar com mulheres na promoção das artes plásticas, grupo que historicamente foi negligenciado”, diz Islana Rosa, fundadora da marca.

O start do projeto se deu por meio de um convite a artistas mulheres negras brasileiras para que enviassem uma proposta de arte que seria transformada em uma estampa para camisetas da marca. No mês de outubro de 2020, foram selecionadas quatro vencedoras, Amanda Lobos (@maisdeumlobo), Greicy Kelly (@pretooju), Joyce Gomes (@_joy.arte) e Mitti Mendonça (@mao.negra). As criações podem ser vistas no perfil oficial de Islanna no Instagram (www.instagram.com/islannaofficial).

O projeto tem viés social em sua totalidade, sendo que 50% do lucro das vendas das camisetas serão distribuídos para a artista detentora da estampa e os outros 50% serão doados para uma das instituições que trabalham com o empoderamento feminino negro no Brasil, como a Gelédes, organização que se posiciona em defesa de mulheres e negros, e a ONG Criola, que defende e promove os direitos das mulheres negras.

@islannaofficial
Artistas Vozes Negras

*Joyce Gomes (@_joy.arte) Joyce é artista e educadora, natural de Embu das Artes -SP. Contempla pinturas, desenhos e escritas em sua linguagem artística e usa destes meios para comunicar sua própria história Afro-diaspórica.

*Greicy Kelly (@pretooju) Greicy é de Rio das Ostras, interior do Rio de Janeiro. Seu trabalho usa técnicas de colagem digital, que se aperfeiçoaram e foram criando cada vez mais identidade através das inúmeras criações executadas pela artista durante a pandemia.

*Mitti Mendonça (@mao.negra) Mitti é natural de São Leopoldo-RS. Em 2017, criou o selo Mão Negra, para valorizar o bordado, que circula há 100 anos entre as mulheres de sua família. Na arte, usa as técnicas de bordado, crochê, tapeçaria e ilustração digital. Suas obras abordam as poéticas negras, a memória, o afeto e a ancestralidade.

*Amanda Lobo (@maisdeumlobo) Amanda nasceu em Vila Velha-ES e é artista, ilustradora e estudante de Design. Aos 21 anos produz artes ilustradas por traços e uso de paletas que resultam em uma estética marcante. Compartilha tudo em seu projeto pessoal e aborda temáticas que tangem contextos sociais próximos à artista.

Liliane Rocha, especialista em diversidade, pode contribuir com matérias sobre os movimentos antirracistas no mundo e no Brasil

Liliane Rocha, tem ampla experiência e pode contribuir com a abordagem da questão dos movimentos antirracistas no mundo e no Brasil, iniciados após o assassinato de George Floyd, ocorrido semana passada nos EUA. As manifestações populares estão sendo potencializadas pela revolta das populações de diversos países que estão insurgindo contra o preconceito e desigualdades.

Liliane Rocha é uma das principais vozes no País em defesa da inclusão e equidade entre negros e brancos. Este ano foi reconhecida, pela segunda vez consecutiva, como uma das 101 líderes globais de diversidade em evento realizado na Índia.

A especialista viveu na pele os desafios de ser mulher e negra. Enfrentou situações de preconceito. Durante os 14 anos em que trabalhou nas áreas de Sustentabilidade e Diversidade de Multinacionais foi aprimorando seu olhar e se especializando para atingir um sonho que sempre teve: ajudar no processo de mudança do mundo e torna-lo mais inclusivo à população negra.

Hoje é CEO da Gestão Kairós uma empresa que tem se tornado referência ao apoiar grandes empresas na implantação de estratégias exitosas da diversidade. “Superar os desafios da diversidade e vivenciar na própria pele, enxergando in loco em que as empresas acertam e erram ao lidar com a valorização da diversidade, me deu a oportunidade única de construir uma estratégia que funciona em profundidade por somar abordagens que vão da inclusão à vantagem competitiva que a diversidade oferece às empresas.”

Ter nascido e crescido numa comunidade periférica, sofrido todos os preconceitos impostos às mulheres negras e pobres, não a impediram de se superar. Hoje é mestre em Políticas Públicas, É professora na Pós Graduação de Sustentabilidade e Diversidade na FIA/USP, idealizadora e professora do curso de diversidade no curso de marketing da ESPM. Em 2018 escreveu o livro “Como ser um líder inclusivo” que já foi vendido e distribuído a lideranças de grandes empresas em todo o Brasil.

Liliane também tem inovado e sido atuante nas discussões sobre diversidade, inclusive com a criação de novos termos e conceitos como o Diversitywashing – Lavagem da Diversidade. De sua autoria o termo tem sido usado para identificar práticas ou ações de empresas, governos e outras instituições que se apropriam de questões relacionadas à temática da Diversidade e Inclusão e das lutas por equidade social para ganharem posicionamento em marketing e comunicação sem que, de fato, realizem ações concretas dentro de sua estrutura organizacional.

Vidas Negras Importam

Mulheres na linha de frente das lutas sociais


Para aprender, entender , e,  principalmente , apoiar a comunidade negra, é preciso descobrir histórias inéditas. E nós temos uma , a da carioca Ana Paula Bernabé . Aos 45 anos,  moradora do bairro Pimenta (São Paulo), ela traz no corpo as cicatrizes de muitas chicotadas. Na própria carne, na memória, na alma, sabe o que são as dores dilacerantes sofridas pelos antepassados nas senzalas.

Mãe de três filhas, quando ela pensava que estava sob proteção dos racistas da nossa sociedade nas ruas, foi amarrada,  sofreu açoites, estupro, todos os tipos de violência física e moral  dentro do próprio lar.

Leonina, corajosa, desempregada nesse momento de pandemia, Ana Paula não desiste, se reinventa . Sem um companheiro, sem poder trabalhar como faxineira (não pode entrar nos lares) , lava carros para pagar as contas, ajudar filhas e netos. No final do dia, cansada, tem um momento de alento  na companhia de uma de suas paixões: os livros.

Qual sonho da Ana no momento? Conseguir comprar uma cadeira de rodas para a neta de seis anos que não pode andar por ser portadora de microcefalia (malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada).

A luta da carioca apaixonada por samba que deseja correr a São Silvestre, parece história de cinema. Agora, ela vai tentar vencer mais um de tantos obstáculos enfrentados em sua vida. Mesmo sabendo da crise no setor audiovisual, a mulher batalhadora que tem orgulho de sua cor, apesar de tudo o que já sofreu, quer ser dublê . E ela já iniciou as aulas de boxe seguindo o protocolo para evitar contaminação do novo coronavírus . Ela coloca máscara descartável, usa  álcool em gel , protetor facial e segue para o treinamento sob o comando do diretor do Centro de Treinamento de Dublês e Atores , o ator e produtor Bruno Santana .  Ambos, estão sob a supervisão atenta de uma técnica de enfermagem . 

Depoimento :

Gostaria de ver a história de Ana Paula Bernabé ter um final feliz.

Conto com você para a pauta?

Sugerimos  porque 61% das vítimas de feminicídio são negras.

62% os mais vulneráveis à morte por covid-19

10% dos escritores negros tem suas histórias publicadas por grandes editores.

2,5 vezes mais afetados por homicídios são negros

5% estão nos cargos de liderança das maiores empresas do país

60% dos jovens pretos cometem suicídio

4% parlamentares

18% magistrados

16% professores universitários

Obs. Números recentes, porém sujeitos a alterações nas estatísticas.

Como o racismo se constitui como elemento fundamental para a definição de quais são os corpos que se pode matar ou deixados para morrer

Recentemente ganhou repercussão mundial o assassinato de um negro por um policial branco que o estrangulou com seu joelho por mais de 9 minutos e o matou por asfixia, mesmo sem nenhuma reação do rapaz detido, e do mesmo permanecer esse tempo suplicando para poder respirar.

O psicólogo e psicanalista Ronaldo Coelho, da capital paulista, explica que o racismo nos constitui de maneira inconsciente na medida em que não reconhecemos que concebemos, silenciosamente, que a vida dos brancos importam, e a dos negros não. Para o especialista, há uma tendência a banalizar e naturalizar o mal que tem como alvo a população negra.

A Necropolítica é uma tecnologia do poder analisada pelo cientista político Achille Mbembe. Ela implica numa gestão da morte como estratégia política de governo na qual setores da sociedade recebem o mínimo de todas as políticas de renda, seguridade social, infraestrutura sanitária e transportes para que sejam mantidas propositalmente num limiar muito tênue entre a vida e a morte. Adicionado a isso, as instituições jurídicas e penais ocupam um lugar decisivo para fazer morrer sem grande esforço (e sem que seus agentes sejam responsabilizados e punidos) pessoas provenientes desses setores. Para o exercício da necropolítica o racismo é peça chave.

“O racismo internalizado, que acontece silenciosamente dentro de cada um, faz com que naturalizemos o estado de miséria de negros, ou mesmo do extermínio da população negra e pobre pela polícia. De certo modo, a polícia tem autorização para matar essa população porque a retirada de suas vidas não nos comove tanto como poderia nos tocar o assassinato de um jovem branco do Jardins pela mesma polícia”, afirma o especialista.

O movimento #blacklivesmatter ou #vidasnegrasimportam vem na direção de denunciar essa produção do racismo aliada a uma necropolítica como gestão de estado. “Vale lembrar que para um governo que aposte na necropolítica a COVID19 não é um problema, mas sim uma oportunidade para o extermínio das populações mais vulneráveis”, encerra Ronaldo.