Influencers negros se juntam a campanha contra o racismo e cobram ação

“Até quando vão fechar os olhos para isso?”, perguntam Douglas Belchior, Preta Ferreira, Ale Santos, Preta Rara e Maria Clara Araújo em vídeo-manifesto 

Alguns dos nomes mais representativos do movimento negro do Brasil na atualidade se uniram em um vídeo-manifesto a fim de provocar mudança na sociedade na luta contra o racismo. A ação, que visa intensificar o debate sobre o tema, faz parte da campanha “Vidas Negras” lançada no último dia 9 pela plataforma de petições online Change.org.

No vídeo, os influenciadores apresentam um manifesto narrando os marcos históricos que denunciam o racismo estrutural na sociedade brasileira. Ao longo de pouco mais de dois minutos, discorrem sobre a condição da negritude no Brasil e apontam desigualdades com base em dados e contextualização histórica, provocando reflexão em quem assiste. 

A rapper e historiadora Preta Rara abre as falas lembrando que a escravidão traficou mais de 5 milhões de vidas da África para o Brasil, num regime que durou 350 anos, mas que perpetua desigualdades até hoje. Na sequência, os ativistas escancaram números sobre o racismo na atual sociedade. Apesar de negros serem maioria na população brasileira (54%), eles são minorias nos cargos executivos e na política, citam os militantes no vídeo. 

“Dentre os mais pobres no Brasil, 78% das pessoas são como eu, negras”, pontua o educador Douglas Belchior. “A cada 23 minutos um jovem negro é violentamente assassinado no Brasil. Até quando vão fechar os olhos para isso?”, questiona o influencer em outro ponto. 

O vídeo, feito pela Oxalá Produções, ainda conta com as participações de Preta Ferreira, militante do movimento por moradia, de Maria Clara Araújo, transfeminista e educadora decolonial, além do escritor e pesquisador Ale Santos. 

Campanha Vidas Negras

A campanha “Vidas Negras”, lançada pela Change.org, tem o vídeo-manifesto como elemento principal, mas ainda conta com outras peças, como outro vídeo inédito gravado pela mãe do garoto João Pedro, morto durante operação policial no Rio de Janeiro, em 18 de maio. No filme, Rafaela Pinto critica a atuação da polícia nas comunidades e cobra justiça.

O objetivo da campanha é ampliar a visibilidade de mobilizações surgidas na plataforma com a temática antirracista. Por isso, outro elemento da “Vidas Negras” é um hotsite que concentra mais de 90 abaixo-assinados e 7,7 milhões de apoiadores em torno que pautas por justiça racial. Um deles engaja mais de 3 milhões de assinaturas pedindo justiça a João Pedro.

A página na internet tem parceria da Coalizão Negra por Direitos, que reúne 150 organizações do movimento negro no Brasil. Confira o hotsite: changebrasil.org/vidasnegras

A fim de intensificar o debate e gerar mais apelo na sociedade por mudanças, a campanha também traz, nas redes sociais da Change.org, conteúdos didáticos sobre o racismo no Brasil, com dicas práticas sobre como identificar a discriminação e adotar uma postura antirracista, além de uma linha do tempo com marcos legais de exclusão de pessoas negras. 

“Sabemos que infelizmente muitos brasileiros e brasileiras ainda não têm uma compreensão básica sobre os impactos do racismo estrutural, que interfere no acesso a direitos fundamentais para pessoas negras e vai além, minando possibilidades de que desenvolvam seu potencial e até mesmo abalando a autoestima dessa população”, afirma Anne Galvão, conselheira de Diversidade e Inclusão da Change.org, porta-voz da campanha.  

Aretha Oliveira inicia projeto com Fernanda Souza para inspirar pessoas no meio do debate sobre o racismo

Em formato de lives, Iniciativa pretende levar esperança através de histórias de pessoas pretas, anônimas, que são exemplos de superação

As atrizes Aretha Oliveira e Fernanda Souza, iniciaram o projeto Trajetórias Pretxs que Inspiram, que visa conscientizar sobre o racismo e levar esperança com histórias de pessoas anônimas que viveram grandes superações e atualmente são exemplos para outras pessoas. Por meio do perfil do Instagram da Fernanda Souza, Aretha entrevista, em formato de live, homens e mulheres que, de alguma forma, atribuíram novo significado a acontecimentos marcantes em suas vidas, superaram problemas, preconceitos e os empecilhos encontrados pelo caminho.

A ideia nasceu por causa da minha angústia em ver nos noticiários, histórias sobre o racismo de forma muito contundente. Como não bastasse o momento que estamos vivendo por conta da pandemia, ver os nossos sofrendo me causou repulsa. O meu desejo era entregar outro tipo de informação, para lembrar que somos muito mais do que esse monte de tragédia. Proporcionar um pouco de esperança para que as pessoas não entrem no desespero, que eu mesma estava entrando, e que elas consigam encontrar forças para resolver questões próprias“, diz Aretha Oliveira.

Segundo a atriz, o objetivo também é mostrar para as pessoas não negras, que começaram a se interessar mais pela luta contra o racismo, a realidade que as pessoas pretas vivem e quais são seus desafios, para entender o que elas podem fazer concretamente para ajudar na causa. Foi esse o contexto que fez com que a atriz Fernanda Souza entrasse para o projeto. “Há muito tempo a Fê queria fazer algo pela causa, e em um bate-papo despretensioso, onde eu falei sobre o meu desejo, ela sentiu que poderia somar cedendo sua rede social para ser o canal de disseminação das histórias e amplificar, ainda mais, histórias tão potentes“, explica Aretha. Fernanda Souza possui atualmente mais de 22 milhões de seguidores em seu perfil do Instagram.

O projeto, que teve início no dia 4 de julho, já contou com duas participações. A primeira entrevistada foi da Dra Erica Toledo, que cresceu em um internato e, aos 14 anos, ao sair de lá, teve que enfrentar os problemas da família, perdeu a mãe e a avó e, sem se encaixar em nenhum outro lar, e aos 16 anos foi morar sozinha. A paulistana fez duas faculdades, exerce sua profissão de advogada empresarial trabalhista.

Kenia Aquino foi a segunda entrevistada, que descobriu quando criança que queria ser comissária de bordo. A desconfiança relacionada à sua capacidade surgiu dentro da própria casa. Mesmo assim seguiu em frente, mas deparou com uma realidade que a fez adoecer, o racismo nada velado vivido a bordo. A aeromoça criou um coletivo que visa ajudar tripulantes negros.

As histórias chegam pela rede social da Aretha Oliveira e a seleção fica por conta dela e da Fernanda Souza, que debatem e decidem juntas quem será o próximo entrevistado. “A ideia é selecionar pessoas com perfis variados para que muitas pessoas se identifiquem com diferentes questões e se inspirem nelas”, finaliza Aretha.

Sobre a atriz – Aretha iniciou sua vida artística aos 5 anos de idade, além de atuar em novelas, a atriz também encenou em diversas obras teatrais, e comerciais de tv. Seu mais recente trabalho como atriz foi na peça “Vamos”, que estreou em novembro de 2019 em São Paulo. Atualmente é Influenciadora digital e dona de um canal no Youtube, que leva o seu nome, onde compartilha dicas de cuidados com cabelos cacheados, leva informação, entretenimento e reflexão ao seu público, formado principalmente por mulheres de 25 a 35 anos. Em suas redes sociais compartilha seu dia a dia, além de se mostrar muito próxima e acessível aos seus seguidores.

Livro que aborda as sutilezas do racismo de quem não se acha racista chega ao Brasil pela Faro Editorial

Autora fez um estudo aprofundado das atitudes racistas e de como cada um de nós pode refletir sobre elas. Um dos trabalhos mais respeitados sobre o preconceito estrutural presente em nossas sociedades

Eu não sou racista, mas… Essa simples composição de frase já demonstra que existe sim um viés racista em algum pensamento, mesmo que involuntário. Ainda mais quando quem diz essa frase é um branco, que teve em sua criação algum traço de racismo e que luta contra isso. Negação, silêncio, raiva, medo, culpa… essas são algumas das reações mais comuns quando se diz a uma pessoa que agiu, geralmente sem intenção, de modo racista. Mas mais do que negar ou se defender, é preciso entender suas atitudes e não apenas não ser racista, mas se tornar um antirracista.

A Faro Editorial llançou recentemente um dos livros mais polêmicos e que está na lista dos mais vendidos do The New York Times, “Não basta não ser racista: Sejamos antirracistas” de Robin Diangelo, professora universitária, autora e consultora em justiça racial e social nos Estados Unidos. Neste livro, a autora apresenta um estudo do racismo e mostra como um sistema de autodefesa sustenta a ideia de uma superioridade branca.

Ser abertamente racista não é algo socialmente aceitável. Ninguém quer ser visto assim. Mas cada vez que se nega o racismo, impedimos que ele seja abordado, que nossos preconceitos sejam discutidos, e jogamos tudo de volta para debaixo do tapete. As reações de negação não servem apenas para silenciar quem sofre o preconceito, mas escondem um sentimento que a autora passou a chamar de fragilidade branca.

Robin fez um experimento muito interessante: catalogou frases, palavras, sentimentos das pessoas que se veem sem qualquer preconceito e demonstrou que, no fundo, ele estava lá.  E apresenta muitas histórias e depoimentos para comprovar isso. Sua proposta é de que comecemos todos a ouvir melhor o outro, estabelecer conversas mais honestas e reagir a críticas com educação e abertura ao outro.

Não basta apenas sustentar visões progressistas, condenar os racistas toscos nas mídias sociais. A mudança começa conosco. É hora de todos os brancos assumirem sua responsabilidade e abandonarem a ideia de superioridade.

Ser antirracista é um passo além, proativo, na luta contra o racismo no mundo.

“DiAngelo é uma afirmação fundamental no momento em que o debate está tão polarizado. Parece que falamos sobre racismo a toda hora. Ou falamos sobre a dificuldade de discutir racismo na sociedade. O problema não é a falta de conversa, mas os diferentes níveis de entendimento sobre o que é racismo” – The Guardian

“Este livro faz a exposição metódica e irrefutável do racismo no pensamento e na ação, é um pedido de humildade e vigilância” – New Yorker

“DiAngelo fornece uma lente poderosa para examinar e lidar com o racismo nos dias de hoje” – Publishers Weekly

Ficha Técnica

Título: Não basta não ser racista – Sejamos antirracistas

Nº de páginas: 192

Preço: R$ 39,90

Sobre a autora

Robin DiAngelo é professora universitária, autora e consultora em questões de justiça racial e social há mais de vinte anos. Não basta não ser racista – Sejamos antirracistas ocupa as primeiras posições das listas de mais vendidos do mundo inteiro desde seu lançamento.

Liliane Rocha, especialista em diversidade, pode contribuir com matérias sobre os movimentos antirracistas no mundo e no Brasil

Liliane Rocha, tem ampla experiência e pode contribuir com a abordagem da questão dos movimentos antirracistas no mundo e no Brasil, iniciados após o assassinato de George Floyd, ocorrido semana passada nos EUA. As manifestações populares estão sendo potencializadas pela revolta das populações de diversos países que estão insurgindo contra o preconceito e desigualdades.

Liliane Rocha é uma das principais vozes no País em defesa da inclusão e equidade entre negros e brancos. Este ano foi reconhecida, pela segunda vez consecutiva, como uma das 101 líderes globais de diversidade em evento realizado na Índia.

A especialista viveu na pele os desafios de ser mulher e negra. Enfrentou situações de preconceito. Durante os 14 anos em que trabalhou nas áreas de Sustentabilidade e Diversidade de Multinacionais foi aprimorando seu olhar e se especializando para atingir um sonho que sempre teve: ajudar no processo de mudança do mundo e torna-lo mais inclusivo à população negra.

Hoje é CEO da Gestão Kairós uma empresa que tem se tornado referência ao apoiar grandes empresas na implantação de estratégias exitosas da diversidade. “Superar os desafios da diversidade e vivenciar na própria pele, enxergando in loco em que as empresas acertam e erram ao lidar com a valorização da diversidade, me deu a oportunidade única de construir uma estratégia que funciona em profundidade por somar abordagens que vão da inclusão à vantagem competitiva que a diversidade oferece às empresas.”

Ter nascido e crescido numa comunidade periférica, sofrido todos os preconceitos impostos às mulheres negras e pobres, não a impediram de se superar. Hoje é mestre em Políticas Públicas, É professora na Pós Graduação de Sustentabilidade e Diversidade na FIA/USP, idealizadora e professora do curso de diversidade no curso de marketing da ESPM. Em 2018 escreveu o livro “Como ser um líder inclusivo” que já foi vendido e distribuído a lideranças de grandes empresas em todo o Brasil.

Liliane também tem inovado e sido atuante nas discussões sobre diversidade, inclusive com a criação de novos termos e conceitos como o Diversitywashing – Lavagem da Diversidade. De sua autoria o termo tem sido usado para identificar práticas ou ações de empresas, governos e outras instituições que se apropriam de questões relacionadas à temática da Diversidade e Inclusão e das lutas por equidade social para ganharem posicionamento em marketing e comunicação sem que, de fato, realizem ações concretas dentro de sua estrutura organizacional.

Como o racismo se constitui como elemento fundamental para a definição de quais são os corpos que se pode matar ou deixados para morrer

Recentemente ganhou repercussão mundial o assassinato de um negro por um policial branco que o estrangulou com seu joelho por mais de 9 minutos e o matou por asfixia, mesmo sem nenhuma reação do rapaz detido, e do mesmo permanecer esse tempo suplicando para poder respirar.

O psicólogo e psicanalista Ronaldo Coelho, da capital paulista, explica que o racismo nos constitui de maneira inconsciente na medida em que não reconhecemos que concebemos, silenciosamente, que a vida dos brancos importam, e a dos negros não. Para o especialista, há uma tendência a banalizar e naturalizar o mal que tem como alvo a população negra.

A Necropolítica é uma tecnologia do poder analisada pelo cientista político Achille Mbembe. Ela implica numa gestão da morte como estratégia política de governo na qual setores da sociedade recebem o mínimo de todas as políticas de renda, seguridade social, infraestrutura sanitária e transportes para que sejam mantidas propositalmente num limiar muito tênue entre a vida e a morte. Adicionado a isso, as instituições jurídicas e penais ocupam um lugar decisivo para fazer morrer sem grande esforço (e sem que seus agentes sejam responsabilizados e punidos) pessoas provenientes desses setores. Para o exercício da necropolítica o racismo é peça chave.

“O racismo internalizado, que acontece silenciosamente dentro de cada um, faz com que naturalizemos o estado de miséria de negros, ou mesmo do extermínio da população negra e pobre pela polícia. De certo modo, a polícia tem autorização para matar essa população porque a retirada de suas vidas não nos comove tanto como poderia nos tocar o assassinato de um jovem branco do Jardins pela mesma polícia”, afirma o especialista.

O movimento #blacklivesmatter ou #vidasnegrasimportam vem na direção de denunciar essa produção do racismo aliada a uma necropolítica como gestão de estado. “Vale lembrar que para um governo que aposte na necropolítica a COVID19 não é um problema, mas sim uma oportunidade para o extermínio das populações mais vulneráveis”, encerra Ronaldo.